Entre vozes que entoavam cantigas antigas e mãos que marcavam o território da cidade em um mapa coletivo, o 3º encontro da Ciranda Formativa começou diferente. Não com slides ou protocolos, mas com memória. Com infância.
Realizada na quarta-feira, 15 de abril, no auditório da Secretaria de Educação, a atividade propôs mais do que uma formação técnica: convidou os participantes a revisitarem suas próprias experiências de infância para compreender, com mais profundidade, o lugar do brincar na vida das crianças.
A iniciativa deu continuidade à capacitação promovida pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Educação, em parceria com a Fundação Urban95, com o objetivo de fortalecer o planejamento e a execução de políticas públicas voltadas às crianças de 0 a 6 anos.
Ao som de músicas tradicionais, como “Escravos de Jó”, os participantes foram conduzidos a uma reflexão sensível sobre o tempo em que brincar era linguagem cotidiana. O gesto simples de cantar e brincar, ali, não era apenas uma dinâmica – era um resgate. Um lembrete de que o brincar não é acessório, mas essência.
A proposta do encontro foi clara: evidenciar que brincar é uma prática fundamental para o desenvolvimento saudável, para o conhecimento de mundo e para a construção de vínculos. Em um contexto em que, cada vez mais, crianças perdem o acesso ao chão, à rua e ao tempo livre, a formação trouxe à tona uma pergunta urgente: onde, afinal, as crianças podem brincar?
Essa reflexão ganhou forma em uma dinâmica coletiva. Diante de um mapa da cidade de Olímpia, os participantes foram convidados a identificar, com blocos de nota, os espaços disponíveis para o brincar — praças, playgrounds, bosques, pistas de caminhada. O resultado revelou um desenho desigual: a oferta de espaços está concentrada em regiões específicas, enquanto outras áreas da cidade permanecem com pouca ou nenhuma estrutura. Mais do que um diagnóstico, a atividade escancarou um desafio: tornar o brincar mais acessível e equitativo.
Na sequência, o encontro contou com uma palestra on-line promovida pela Rede Urban95 Brasil, ministrada por Lucila Almeida, mestranda em Educação, Política, História e Sociedade pela PUC-SP, é pedagoga com especialização em Educação de Crianças de 0 a 3 anos pelo Instituto Singularidades, com mediação de Rafaela Pacola, do CECIP.
Na fala, Lucila trouxe uma provocação potente: entre prédios altos e rotinas aceleradas, a infância tem sido comprimida por uma cidade que pouco escuta suas necessidades. Cada muro, portão ou semáforo, segundo ela, pode representar uma interrupção na experiência essencial de descobrir o mundo com o corpo inteiro.
A palestrante destacou que o brincar é a forma como a criança investiga, narra e compreende o mundo. É por meio de gestos, sons, movimentos e objetos que ela constrói sentido, experimenta relações e desenvolve sua imaginação. “Brincar não é apenas ocupar o tempo”, reforçou. “É um direito e uma linguagem.”
Nesse contexto, a natureza aparece como elemento central. Quanto mais as crianças têm a oportunidade de tocar, observar e interagir com o ambiente natural, mais ampliam suas descobertas e seu aprendizado sensorial. A cidade, portanto, precisa acolher essa experiência.
A formação também reforçou a importância de reconhecer crianças como sujeitos de direitos — cidadãos que pertencem à cidade e devem ter garantido o acesso a espaços que favoreçam seu desenvolvimento integral. Como escreveu Mário Quintana, “as crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade”. E talvez seja justamente essa verdade que a formação busca recuperar.
Nesta etapa, o foco esteve na organização dos serviços e na necessidade de atuação integrada entre as áreas para garantir direitos, proteção e desenvolvimento na primeira infância. A proposta também estimulou reflexões sobre a intersetorialidade como caminho essencial para a efetivação do Plano Municipal da Primeira Infância (PMPI).
Encerrando o encontro, a supervisora de Ensino e responsável pelo desenvolvimento do plano em Olímpia, Camila Aparecida dos Santos Oliveira, apresentou as orientações para a construção da carta de serviços, documento que será elaborado ao final da formação com o objetivo de organizar e dar visibilidade às ações voltadas à primeira infância. A proposta é que esse material seja acessível e compreensível para toda a população, fortalecendo a integração entre políticas públicas.
Vale ressaltar que a Ciranda Formativa integra uma mobilização nacional articulada pela Rede Urban95 Brasil, reunindo municípios comprometidos com o desenvolvimento integral na primeira infância. Em Olímpia, os encontros seguem ao longo do mês de abril, mobilizando gestores, técnicos e educadores na construção de uma cidade que, de fato, reconheça: crianças não cabem apenas na escola — elas pertencem à cidade.









